Mulheres dirigindo documentários: o caminho até Petra Costa

Você já deve ter ouvido falar em Petra Costa.

Ou no documentário “Democracia em Vertigem”.

Ou no fato de que havia um documentário brasileiro concorrendo ao Oscar 2020 na categoria.

Todos eles fazem parte da mesma história.

O nome da cineasta Petra Costa ganhou projeção mundial ao ter seu documentário, que fala sobre o momento de apogeu e queda de um grupo político no Brasil, da ascensão de Lula ao poder ao impeachment de Dilma Roussef, concorrendo à estatueta mais desejada do mundo.

Opiniões políticas à parte, isso é um grande feito. Não só pelo trabalho brasileiro ter sido reconhecido pela Academia, a mais cobiçada premiação da indústria cinematográfica, mas por ter sido dirigido por uma mulher. Em um mercado sabidamente dominado por homens, ter uma mulher na direção de uma produção indicada ao Oscar é um marco.

Aliás, vale ressaltar que, dentro dos cinco filmes indicados na categoria Melhor Documentário, 4 foram dirigidos por mulheres. Essa proporção dificilmente é observada em outras categorias de maior destaque, como Melhor Filme, mas já é um grande passo em direção à equidade de gênero na indústria.

E para quem pensa que essa questão é uma discussão do nosso tempo, está muito enganado. Lá em 1929, Virginia Wolf escreveu sobre a diferença de temáticas abordadas por homens e mulheres na literatura. Às mulheres, restava escrever romances e histórias de ficção porque elas não podiam viver certas experiências, reservadas somente aos homens – que, no fim, tinham material para contar outros tipos de história.

E, se Petra Costa chegou ao Oscar em 2020, é porque outras mulheres começaram a abrir o caminho décadas atrás. Conheça alguns exemplos de documentários dirigidos por mulheres que ganharam destaque na produção nacional:

1966 – Helena Solberg dirigiu “A Entrevista”, um dos primeiros documentários dirigidos por uma mulher. A obra traz entrevistas com 70 mulheres para entender como elas viam o cenário político do Brasil naquela época. Helena foi, inclusive, a primeira mulher a participar do movimento, motivado pelo golpe militar de 1964, que visava registrar a realidade brasileira sob o lema “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”, em oposição ao cinema feito até a década de 50.

1989 – Lúcia Murat foi a diretora de “Que Bom Te Ver Viva”, que falava sobre a tortura na época da ditadura militar com o ponto de vista da própria experiência

2013 – Maria Clara Escobar dirigiu “Os Dias Com Ele”, que também tinha a mesma temática. O documentário foi feito por meio de sessões de psicanálise para tratar sobre o anos de tortura que viveu na década de 70.

2017 – “O Caso do Homem Errado”, dirigido por Camila Moraes, foi pré-selecionado pelo Ministério da Cultura para concorrer ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, mas a indicação não foi para frente. No documentário, Camila, primeira mulher negra a ter a chance de ser indicada ao Oscar, fala sobre genocídio dos jovens negros contando a história de Júlio César de Melo, morto por policiais em Porto Alegre na década de 80 ao ser confundido com um assaltante.

 

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